sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Minhas Férias, Pula uma linha, Parágrafo



Falar de férias é relembrar os tempos da infância, a casa da vovó, o cheiro do bolo saindo do forno, o quintal cheio de árvores com primos e vizinhos brincando até o sol se pôr, acordar tarde com o melhor café-da-manhã, pular corda, jogar bola, passear no parque e por que não um primeiro amor?

Viagem simples, mas cheia de novidades. A casa que é grande fica pequena, os numerosos quartos ficam apertados. Minha avó atrás da gente gritando pra não correr, pra vir comer, tomar banho e escovar os dentes, o meu avô escutando o rádio e dando gargalhadas dos causos contados. É uma alegria só.

Sempre vamos de carro na véspera do Natal, minha mãe fica andando pela casa achando que está esquecendo algo e meu pai impaciente grita para andarmos logo senão vamos chegar tarde. Minha irmã fica chorando porque quer levar os cachorrinhos e eu fico imaginando como serão os tão esperados dias na casa da vovó.

Quando as férias terminam, meus avós ficam tristes, eu também. Aí é hora de voltarmos para nossa casa, simples, é só fazer o caminho todo ao contrário, mas por acaso às vezes parece mesmo que é outra estrada e que não foi por ali que viemos, ou será que fui eu quem voltei diferente?

Ao chegar na escola, é sempre a mesma coisa: fazer uma redação com o tema: Minhas Férias. Todo mundo odiava, eu lembro. E eu, que sempre adorei redações, amava. Nunca tinha nada demais pra contar porque não fiz grandes viagens, era sempre a casa da vovó, as mesmas brincadeiras e os mesmos passeios, não que isso não seja interessante, mas o desejo de inovar era maior. O resto dos dias ficava em casa sem fazer nada, nada interessante, mas coisas absolutamente imperdíveis como acordar às 10 da manhã e ficar lendo na cama até sentir fome, sem saber se está na hora de almoçar ou de jantar.

A professora dava 30 minutos. Todo mundo tirava os cadernos novos da mochila, e pra deixar mais bonito usava e abusava das canetas coloridas. De repente, as férias de todos – inclusive as minhas – ficavam silenciosas. Onde já se viu férias sem barulho? Coloquei minhas férias lá no alto e bem no meio da página. Pulei uma linha. Parágrafo.

Começava a escrever tudo o que havia feito e na maioria das vezes inventava histórias mirabolantes, viagens à praia, ao Hopi Hari que só existiam nos meus sonhos. Não existe nada melhor que ser criança e poder sonhar, inventar, reiventar. É tudo tão simples, tão fácil, tão gostoso. Não me incomodava com nada, só queria viajar, mesmo que no papel. Como dizia uma velha propaganda de absorvente: incomodada ficava a minha avó!

Hoje vejo que mesmo dez ou quinze anos depois eu ainda amo fazer redações longas sobre minhas férias. Amo reviver essas viagens, esses passeios, as histórias, sempre inovando e inventando. Gosto de explorar o desconhecido, de fugir a regra, sair do padrão e incansavelmente buscar a criatividade onde quer que ela esteja. Gosto de escrever, reescrever, poetisar, polemisar, acredito que o grande barato da vida está nisso... viver sempre incomodada para nunca parar de criar.

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